Entrevista: Miro pede ajuda para a Casa de Apoio

Cassemiro Moreira é um exemplo de superação. Há cerca de 20 anos, morava na rua, usava drogas e contraiu o vírus HIV. Decidido a reverter esse cenário desfavorável, lutou o quanto pode. E, para ajudar outros em situação semelhante, fundou a Casa de Apoio, uma Organização Não Governamental (ONG) que se tornou referência estadual no acolhimento de moradores de rua, dependentes químicos e soropositivos. Um dos mentores do Programa DST/Aids de Campinas, Miro tem mais desafios pela frente: manter o trabalho realizado há 16 anos, mesmo sem a verba vinda de um convênio firmado com o governo municipal. Sem apoio financeiro do Estado, ele está em busca de outros meios para equilibrar um orçamento que fica mais enxuto a cada dia.
Como surgiu a Casa de Apoio?
Do amor que sinto pelo próximo. Eu passei por tudo que essas pessoas estão enfrentando e sei o quanto sofrem. Felizmente, superei essa fase e senti vontade de ajudar, de contribuir para que cidadãos que vivem nas ruas e portadores do HIV tenham uma vida mais digna. Nessa caminhada, fui conhecendo gente que se juntou a mim, que se tornou parceira e voluntária.

Como funciona a ONG?
Durante muito tempo, íamos às ruas atrás de quem precisava de ajuda. Hoje, como a ONG tornou-se conhecida, as pessoas e os hospitais nos ligam quando não podem ficar com os pacientes. Apesar de não termos mais espaço, damos um jeito e acolhemos. Também promovemos uma série de iniciativas, entre elas a Amizade no Inverno, e participamos de ações da prefeitura, como o Bom Dia Morador de Rua e o Tolerância Zero, sempre dando apoio a quem vive na rua. O trabalho com o dependente químico não é exigir que ele pare de usar drogas, mas mostrar o que pode acontecer com a saúde dele se continuar com o vício. No caso do soropositivo, conseguimos que ele tenha acesso a medicamentos, exames e apoio psicológico. Muitas pessoas que passaram pela Casa de Apoio voltaram a trabalhar e levam uma vida digna.

Quantas pessoas são atendidas atualmente?
Atendemos 32 soropositivos e 42 dependentes químicos.

Normalmente, vemos iniciativas que cuidam de soropositivos ou de dependentes químicos. Por que atender os dois casos em conjunto?
Percebemos que 99% dos soropositivos que atendemos são dependentes químicos. Então, não adiantaria cuidar de uma situação separada da outra. É um tratamento conjunto que também funciona como prevenção. Um dependente químico pode ver em um soropositivo o resultado do uso de drogas coletivo, assim como um soropositivo pode ter uma ideia de como poderá ficar se abandonar o tratamento e passar a usar entorpecentes.

Qual o maior desafio no tratamento de HIV positivos?
Convencê-los a dar continuidade ao tratamento. Muitos desistem porque o início é difícil, já que os medicamentos podem deixá-los indispostos, com insônia e oscilações de humor. Esses efeitos passam com o tempo, mas muitos não têm paciência para esperar.

E o que é mais difícil para o dependente químico que vive na rua?
Deixar a rua. Tratar um morador de rua adicto é bastante complicado porque, naquele ambiente, há muitos atrativos. Conseguir crack é simples, uma pedra custa R$ 5. Então, fica fácil para quem pede dinheiro ou lava um para-brisa no semáforo. Quando o dependente vai para uma ONG, entra em choque com as regras, coisa que não existe na rua, onde ele é livre. Aconselhamos sobre a importância do tratamento, mas a decisão final é dele.

Que tipo de tratamento a ONG oferece a esse dependente?
Fazemos dinâmicas e aconselhamentos.Quando ele se conscientiza e deseja iniciar o tratamento, encaminhamos para o Centro de Atenção Psicossocial AD (Caps-AD), um serviço comunitário do Sistema Único de Saúde (SUS) específico para acolhimento e cuidado de pessoas vitimadas pelo abuso de álcool e entorpecentes. O Caps-AD busca reintegrar o indivíduo à sociedade. Lá, os dependentes passam por diversos tipos de tratamento, inclusive com atendimento psicológico e psiquiátrico.

Tratar os usuários que moram nas ruas é mais complicado?
É um processo muito longo, porque não se trata apenas o vício. Essas pessoas, muitas vezes, não se enxergam mais como parte da sociedade. Sentem muita revolta pela exclusão, pensam que não têm mais nada a perder, não possuem mais objetivos. Muitas chegam à ONG maltrapilhas, há tempos sem qualquer cuidado com higiene. Por isso, o processo passa pelo resgate da dignidade. A pessoa volta a tomar banho, fazer a barba, usar desodorante, tem um banheiro para usar e uma cama para dormir, além da retomada dos laços familiares e de amizade e a desintoxicação. O processo é diferente para cada uma. Tem um paciente que está conosco há dois anos e meio, enquanto outros ficaram um ano e meio e se recuperaram por inteiro.

Qual o perfil dos moradores de rua de Campinas?
A cidade tem cerca de mil pessoas na rua e não há um perfil definido. Há pessoas dos 18 aos 70 anos, que consomem álcool e crack. O que mais vemos são cidadãos bastante debilitados, com problemas graves de saúde, muitos com câncer e vítimas de AVC que, infelizmente, não têm onde viver.

Como a Casa de Apoio é mantida?
Temos um gasto mensal de R$ 60 mil e, atualmente, conseguimos arrecadar apenas 10% desse valor. Mantemos parcerias com empresas e pessoas que, em sua maioria, nos fornecem alimentos. Promovemos ações para arrecadação de fundos, como uma feijoada anual. Além disso, desde 2005, mantemos um convênio com o governo municipal, por meio do Programa DST/Aids, e recebemos uma verba mensal para reforçar o orçamento. Quando firmamos a parceria, o repasse nos ajudava a pagar despesas com pessoal, contas de água, luz e telefone, combustível e alimentação. Hoje, é suficiente apenas para suprir os gastos com recursos humanos. Estamos enfrentando muitos obstáculos burocráticos para que ocorra o recebimento desse dinheiro, por isso resolvemos romper.

E como o senhor pretende prosseguir com o trabalho da organização?
Enquanto não há previsão de um outro convênio, vamos contar com a ajuda da sociedade e do empresariado. Nosso trabalho, antes de tudo, é fazer um alerta e mostrar que a Aids existe, que não tem cura, mas tem tratamento, assim como a dependência química. O funcionamento da ONG está explicado no site www.grupodaamizade.org.br e nossas portas estão sempre abertas.

Texto de Eduardo Gregori, publicado na revista Metrópole, em 08/08/2011

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