O médico infectologista Jean Gorinchteyn, autor do recém-lançado Aids após os 50, fala sobre o salto da doença entre a população mais velha. Baseado no trabalho que realiza no ambulatório do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, da Secretaria de Estado da Saúde, o médico diz que, discutir sexualidade por si só já é um tabu, e fazê-lo entre pessoas acima dos 50 anos torna-se uma missão árida, principalmente porque misturar sexo e Aids é ir além do debate do sexo. Implica discutir hábitos, desejos e fantasias, diferentemente do que foi estabelecido como moral, ético e aceito pela sociedade. Segundo o infectologista, essa faixa etária foi vítima de desinformação, enfrentando dificuldade no manuseio e na aceitação do preservativo em suas relações.
Como resultado, há a indignação de muitos pacientes, que imaginavam que a Aids era uma doença exclusiva dos jovens e a contaminação de mulheres seria consequência de descuido com a proteção. Um dos depoimentos destacados no livro que mais emocionou o médico foi o de uma senhora: “Doutor, eu sabia que meu marido saía com outras mulheres e tinha medo de ter relação com ele. Pedia para ele usar preservativo, pois sabia que poderia ter alguma doença como gonorréia ou sífilis, mas jamais pensei na Aids. Isso não é doença de jovem?”. O livro tem o prefácio de David Uip, um dos infectologistas mais respeitados do País. O autor assinala que, quando o avô ou o pai de família é moralista e exigente e se vê na condição de contaminado, há a eclosão de todos os preconceitos possíveis, evidenciando o quanto a doença social trazida pelo HIV é mais avassaladora do que as próprias doenças oportunistas advindas da Aids.
Quantas pessoas com mais de 50 anos vivem com HIV hoje no Brasil?
A incidência de Aids em pacientes acima de 50 anos é de cerca de 20%, estando em segundo lugar na categoria etária, perdendo apenas para pacientes com idades entre 20 e 49 anos. Se imaginarmos que, entre os pacientes com HIV, a expectativa de vida está aumentando, portanto estão envelhecendo, assim como a população geral, estima-se que, em 2015, cerca de 50% do total de pacientes com HIV terão idade igual ou superior a 50 anos.
Qual é o perfil dessa faixa?
A maioria dos pacientes é do sexo masculino (89%), heterossexuais (75%) e casados (80%).
A contaminação por HIV tem uma maior incidência em alguma classe econômica específica?
São, na maioria, pacientes de classe socio-econômica mais baixa. Porém, todas as classes são acometidas.
Pessoas menos informadas sobre o assunto correm mais risco ou esta é uma questão que ainda compete com antigos hábitos sexuais e falsas seguranças?
As pessoas dessa faixa etária acreditam ser imunes, talvez porque as campanhas publicitárias que falam sobre os riscos de contaminação mostrem atores jovens. Por outro lado, já não têm o hábito de usar preservativo. Dessa forma, tornam-se mais vulneráveis.
É preciso fazer uma campanha específica para esse público?
Sim, já que as atuais utilizam personagens e linguagens direcionadas aos jovens. É fundamental que pessoas nessa faixa etária que mantenham relações sexuais fora do casamento façam a sorologia para saber se estão contaminadas.
Por isso o senhor convidou nomes como Paulo Goulart, Nicete Bruno e Lima Duarte para fazer comentários no livro?
São pessoas carismáticas, com apelo popular, que podem ajudar a fazer a mensagem do livro ser compreendida.
Onde há maior incidência de contaminação entre pessoas com mais de 50 anos?
Assim como ocorre com outras faixas etárias, as regiões Sudeste e Sul apresentam um aumento de casos de pacientes com idade igual ou superior a 50 anos.
Qual a principal via de contaminação para essa parcela da população?
A maioria das contaminações, 86% dos casos, ocorre por via sexual; 24% ocorrem por uso de drogas e 10% por transfusão de sangue. Daqueles que tiveram contaminação por via sexual, 10% referem-se a relações homo ou bissexuais.
Os medicamentos têm o mesmo desempenho tanto para jovens quanto para adultos acima de 50 anos?
As medicações utilizadas são potentes em todas as faixas etárias, a única diferença é que o início do tratamento é imediato, independentemente da condição imunológica.
Quem está nessa faixa etária tende a se proteger menos e quando descobre não dá a devida atenção ao tratamento. Isso é verdade?
Não. Esse perfil de conduta é mais comum no jovem. O paciente acima de 50 anos fica chocado com o diagnóstico e quer fazer de tudo para continuar vivo. Assim respeita muito mais o tratamento, assume com mais responsabilidade as dietas e a rotina de consultas.
Mudar esse quadro de contaminação que cresce ano a ano é uma questão de comportamento?
Deve-se a uma questão de comportamento, porém mais do que isso deve-se ao fato de as pessoas serem alertadas para esse risco. A conscientização faz com que as pessoas mudem a postura frente às suas práticas sexuais.
Como uma pessoa nessa faixa etária, casada, deve agir ao descobrir que está contaminada?
Imediatamente deve procurar um serviço de referência em Aids próximo ao seu domicílio e, assim, realizar exames complementares, como sorologias de hepatite, sífilis e reações para tuberculose.
Qual o primeiro passo? Onde procurar ajuda? Como contar ao companheiro?
O companheiro (a) pode ou não estar contaminado. Assim, é muito importante que o diagnóstico seja estabelecido rapidamente para se definir ou não a contaminação e indicar a necessidade de tratamento com drogas antiretrovirais específicas para o HIV. Isso evita o comprometimento da imunidade e o surgimento de doenças oportunistas.
Hoje, no Brasil, todas as pessoas podem contar com o tratamento custeado pelo governo?
Felizmente, todo o acompanhamento médico, a realização de exames específicos que guiem o tratamento, a quantificação da carga viral e as medicações que compõem o tratamento são fornecidas pelo governo nas várias esferas municipal, estadual e federal.
Existe algum tipo de apoio psicológico?
Apoio psicológico, assistência social e terapeutas ocupacionais são disponibilizados a todos os pacientes.
Qual a expectativa de vida para uma pessoa que se contamina após os 50 anos?
Isso vai depender da situação em que o paciente teve o diagnóstico estabelecido, seja em vigência de doenças oportunistas ou não. Dependerá ainda de outros fatores como a disciplina em seguir o tratamento e a presença ou não doenças de base, como diabetes e problemas cardíacos, entre outros.
Texto de Eduardo Gregori, publicado na revista Metrópole, em 14/11/2010
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